“Ó senhora... não estamos aqui a perder tempo?”, com o sotaque do Porto bem vincado, já com a conversa a meio. Manuel Resende fazia uma pausa ao falar da sua poesia. “A minha poesia é uma colagem. Tem as mais diversas influências. Desde o Sófocles ao Rui Veloso e ao Sérgio Godinho; tem os Beatles, André Gide, Breton, Cesariny, Jorge de Sena... As coisas mais díspares. E as formas poéticas são as mais desencontradas e aparentemente desconexas. Eu atiro aquilo para lá e de vez em quando começa a sair um soneto, compreende?” Segundo o poeta, esta é a génese dos seus poemas. Cabem todos em pouco mais de 250 páginas, volume que acaba de sair numa edição da Cotovia com o título Poesia Reunida. Nele são visíveis as influências. Aquelas já referidas, e outras: Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill, Rimbaud, Kaváfis, Aquilino Ribeiro, Manuel António Pina, Ruy Belo, Homero, Frei Bartolomeu de Las Casas, Walt Whitman, Adília Lopes. E ainda os dadaístas, os futuristas, os surrealistas, os concretistas. Tudo contido no total da obra poética de alguém que muito sumariamente se resume assim na sua relação com a poesia: “Começou muito cedo, mas não me entreguei completamente...” Porquê? “As condições do fabrico da poesia são muito más.”
Se há razão para Manuel Resende ter publicado tão pouco numa vida que acaba de fazer 70 anos, talvez seja esse descomprometimento com que encarou a sua poesia e a percepção, com o exemplo de António Maria Lisboa, da precariedade não apenas da produção como do lugar da poesia no mundo. Ele explicará mais adiante. Por agora fica essa dupla precariedade como justificação para terem sido apenas três livros numa vida, publicados entre 1983 e 2004: Natureza Morta com Desodorizante (1983), Em Qualquer Lugar (1988) e O Mundo Clamoroso, ainda (2004) a que se juntam agora alguns inéditos e dispersos.
Está sentado à mesa onde todos os dias lê e escreve. Uma superfície quadrada em que fica de costas para uma janela. À esquerda tem uma porta pela qual vai vigiando o cão a brincar no jardim. Não há sinal da sua poesia. Apenas um computador portátil aberto e um dicionário de grego sobre uma pilha de papéis à luz da tarde chuvosa que entra, filtrada. Quase em frente há o mar, mas não se vê dali. Separa-os a estrada e uma fila de casas. Manuel Resende cruza as mãos e, em silêncio, olha de frente com a timidez sem disfarce de quem não está habituado à atenção fixada em si. O seu nome costuma estar nos bastidores enquanto tradutor de poetas como Konstantinos Kaváfis, Odysséas Elytis, Kiki Dimoulá, escritores como Bertolt Brecht ou Franz Kafka. E é naturalmente pelos outros que começa a falar de si. “Aprendi grego a traduzir o Kaváfis”, afirma. E nem sequer era uma paixão. “Tenho respeito por ele, mas não é dos meus poetas preferidos. A tradução de poesia é diferente da do romance. A gente lê um poema e em cinco minutos está lido e aquilo fica ali e dá mais jeito para aprender a língua. Além do original, tinha a tradução do Jorge de Sena e outras e sabia aquilo. Fui percebendo a língua.” Foi em 1985, mais poetas gregos se seguiram. Mas, por essa altura, já publicara o seu primeiro livro. “Por mim, não tinha publicado. O Vasco Graça Moura, que estava na Imprensa Nacional [Casa da Moeda], queria fazer uma colecção de poesia e o Manuel António Pina sugeriu o meu nome.”
FONTES: https://www.publico.pt
Continuar a ler: https://www.publico.pt/2018/05/05/culturaipsilon/noticia/manuel-resende-a-poesia-e-muito-rara-para-ser-desperdicada-com-porcarias-1815786
FOTOGRAFIA: Daniel Rocha



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