de EROTICA LEXICON
(b)
Já reparou, disse Jolce, que não há algarismos nem números começados por bê? Ora pense um bocadinho…Para ter um bê precisa de chegar ao bilião. Quase o tempo da Terra!
Tem razão, respondeu Belinda um pouco admirada depois de alguns segundos de silêncio. Porquê aquele raciocínio naquela altura da conversa? pensou de si para si. Um pequeno mistério que deslindaria mais tarde, quando Jolce já não constituísse para ela qualquer segredo, quando o tivesse reduzido à condição que lhe competia de fogoso cobridor, de doce urso roncante sobre a cama de casal – larga e resistente como ela gostava, como ela exigira no seu quarto de meiga aventureira para viagens sem retorno quando as férias parece que são para sempre.
A verdade é que aquele homem a intrigava desde o princípio. Com o seu rosto cinzelado de arcanjo um pouco brutal e o torso de pugilista amador, assim que o vira no átrio do hotel ficara a cismar. Caçadora de férteis recursos, não lhe passara despercebido o olhar algo febril e o vulto que se recortava, pujante, sob os calções de banho. Ele transportava na mão esquerda um copo de curaçau gelado que fora buscar ao bar e quando os seus olhares se cruzaram ela percebeu que tinha ali um bocado de destino. Seguira-o até à piscina. Chegar a um jantar a dois fôra uma simples naturalidade de fêmea acelerada e experiente nos seus trinta anos de gozadora de rins másculos e sapientes.
E notou ainda, disse ele com a sua voz de baixo enquanto a olhava bem de frente, a mão arrepanhando um pouco a toalha cuja alvura, nem ela sabia porquê, lhe perturbava os sentidos alerta, que algumas das palavras mais inquietantes, mais significativas, é por bê que começam? Beemoth, bendito, Babilónia, bondade, bifronte… Já tinha reparado?
Sob a mesa, com o seu pé Belinda tocou no pé de Jolce. Pisou-o mesmo com decisão e a dureza sentida deixou-a um pouco admirada.
Mas há outras palavras, pelo menos tão significativas embora bem menos inquietantes, que começam por outras letras, disse pausadamente com a voz um pouco rouca. E atacando sem retóricas escusadas e paninhos quentes: Palavras como possui-me, como vem-te dentro de mim, como mete-mo também aí… Não acha?
Sentira chegada a altura de lhe testar de caras a qualidade de macho esclarecido, de jogador de entendimentos e de mundanais sabedorias. Estendeu a mão e agarrou na mão dele, junto da garrafa de Chateau-Yquem e do copo de vidro facetado a que uma suave coloração cor-de-rosa pálido dava uma ténue luz.
Olhou Jolce e estremeceu. O seu rosto parecia ter ganho uma doçura insuspeitada: os traços mais suaves e ao mesmo tempo estranhamente endurecidos tinham ficado como que imersos numa ligeira sombra, tal qual sucede no princípio do entardecer às coisas que nos envolvem. Na testa que os cabelos castanhos claros coroavam parecia ter-se iluminado, de repente, uma pequena estrela.
No pulso, ao rés das veias salientes, ela apalpou uma leve rugosidade e depois distinguiu - enquanto a respiração se lhe adensava - um sinal diminuto, que contudo se percebia ser constituído por três letras muito juntas, num relevozinho finamente traçado: o bê, o duplo fê e o él.
Quando levantou os sugestivos olhos doirados viu então, talvez só com um leve toque de surpresa, enlevo e algum terror, que os olhos esverdeados de Jolce a miravam fundo, bem fundo, com todo o conhecimento e uma absoluta melancolia.
Nicolau Saião



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